Depois da entrevista coletiva de imprensa do filme “Robocop”, que foi realizada na terça-feira, no Hotel Marriott, em Copacabana, o blogueiro do SRZD teve a oportunidade de participar de uma mesa redonda com Joel Kinnaman, o ator que interpreta o “Robocop”, junto a mais três outros colegas de profissão. Muito simpático, super animado e descontraído, Kinnaman respondeu todas as perguntas com muita empolgação e bastantes detalhes.

Leia a entrevista completa:

SRZD: No filme você vai de um estado emocional grande pra um estado emocional praticamente inexistente. Como foi isso pra você?
Joel: Quando sentei com José no nosso primeiro almoço, ele me disse qual seria sua visão pro filme, pra esse personagem e tudo que ele iria passar. Pra mim era uma ótima oportunidade de fazer um filme de ação com um personagem cheio de contrastes e um grande desenvolvimento durante o filme. Foi como oferecer um doce para um ator (risos). São poucos personagens que tem essas variações de emoções. Foi ótimo interpreta-lo. Poxa, ter que interpretar apenas usando o rosto foi desafiador. Me senti como um psicopata sem emoção com o resto do corpo (risos). Sou um ator que trabalha com o físico primeiro. Quer dizer, quando pego um personagem pra interpretar, primeiro eu tento descobrir a linguagem corporal dele. Tento descobrir aonde a tensão existe. Então isso pode me dar um tipo de postura, um tipo de olhar, e por ai vai. Nesse caso tentei fazer igual, mesmo o personagem não tendo como proporcionar nenhuma emoção através do corpo.

SRZD: Teve alguma cena que você achou mais complicada pra fazer?
Joel: Bom, as mais “complicadas”, digamos assim, foram as mais demoradas, mas por causa de procedimentos técnicos. Por exemplo, quando eu pulo por uma janela de vidro de mentira ao mesmo tempo em que estouram uns explosivos. Tivemos que repeti-la varias vezes por causa de ângulos e câmeras ou pequenos problemas com os explosivos e tal. Mas, pensando bem, a cena mais difícil mesmo, emocionalmente falando, foi quando o Dr. Norton mostra ao Alex o que sobrou do seu corpo. Foi muito forte ter uma reação para o personagem se vendo no espelho, Me senti um tanto “nu”, vulnerável. Eu tive que ficar literalmente parado, pois só o meu rosto podia se mexer. E, normalmente, quando esse tipo de cena acontece, você acaba tendo emoções físicas – como, por exemplo, deitar em posição fetal (risos). A cena não foi fácil de fazer, pois sempre que minha cabeça mexia um pouquinho mais, tínhamos que refazer. Fui obrigado a buscar muitas emoções antigas minhas pra fazer o meu melhor. Foram doze horas direto, filmando.

SRZD: Pode nos contar um pouco sobre o começo de sua carreira?
Joel: Claro! Eu estudei atuação durante cinco anos na Suécia. Foi um período excelente de aprendizado. Fiz alguns filmes…o primero se chamava, “O Invisivel”, e eu tinha oito falas. Sendo que seis dessas falas eram a mesma, “O que terei que fazer agora?” (risos). Eu me lembro de me preparar por horas treinando as diferentes maneiras de dizer essa mesma fala (risos). Fiz mais dois outros filmes e no teatro fiz uma grande adaptação de “Crime e Castigo”, do Dostoiévski. Eram 26 atores e 7 músicos. Tinham carros e cointainers espalhados pelo palco. Ganhamos muitos prêmios e atenção da mídia na época. Pra mim foi um grande desafio porque eu praticamente não saia do palco. Ficava em cima dele por três horas e quarenta e cinco minutos. Durante esse período, muitos diretores e produtores foram ver a peça e achavam que eu poderia interpretar um personagem no cinema. Então, assim que fiz o primeiro filme, fiz mais 8 producoes nos 16 meses seguinte. Todas fazendo o papel principal. E isso foi algo diferente, pois na Suécia se fazem mais ou menos uns 30 filmes por ano. Entào, ter um ator fazendo o papel principal em tantas produções não era comum. Depois disso comecei a pensar que poderia tentar uma carreira internacional. Meu pai é americano, falo inglês desde pequeno, então pensei que não ficaria restrito a papéis tipo o guarda de prisão alemão – “vá para direita” (ele fala com sotaque alemão). Muitos atores europeus não conseguem outros papéis além desse tipo. Tive sorte em poder falar duas línguas desde pequeno. Nossa mesa de jantar era meio esquizofrênica (risos). Eu começava uma frase em inglês e terminava em sueco (risos). Mas, o que me trouxe aos EUA foi quando estavam fechando o ator que ia fazer o Thor. Eles fizeram uma grande busca por atores nórdicos, loiros e de olhos claros, pelo mundo todo. Se você tinha essas características, era só se filmar e enviar o vídeo. Eu nunca tinha me filmado antes, pois não é assim que funciona na Suécia. Então pedi pra um amigo me filmar com o iphone dele. Mandei e não pensei mais nisso. Então, duas semanas depois minha irmã me liga e diz que tinha saído uma foto minha no “The Guardian”, o famoso jornal inglês. Eu falei, “O que?”. Ela disse, “isso mesmo, uma foto sua e outros três caras”. Ai que vi que tinha ficado entre os cinco finalistas pra interpretar o Thor. Eu não peguei o papel, mas isso fez com que minha atual agente me procurasse na Suécia me chamasse pra tentar a sorte nos EUA. Eu fui.

SRZD: Qual foi a importância do seu papel na série “The Killing” para ter sido escolhido para interpretar o Robocop?
Joel: A série foi importante… muitos produtores de hollywood tinham visto um filme sueco que eu havia feito chamado, “Easy Money”, no qual eu interpreto esse garoto que tenta ser um impostor que se dá bem com os riquinhos e acaba se envolvendo com o crime organizado. E esse personagem era completamente diferente do que eu acabei interpretando na série. Assim, eles pensaram, “Ok, ele pode interpretar personagens bem diferentes”. Isso deu confiança para eles acreditarem que eu poderia dar conta do recado.

SRZD: Você poderia dizer se vai ter um novo filme do Robocop?
Joel: (risos) Bom, praticamente com certeza. Isso geralmente depende de como vai ser a bilheteria do filme mundo afora. Mas, pelo tipo de filme que é, quando assinei o contrato eles não quiserem correr riscos. Pois, vai que o filme é um enorme sucesso e eles querem fazer outro e vão ter que pegar uma grana alta pra me ter novamente. Ou seja, eu tive que assinar um contrato por mais três filmes.

SRZD: Depois do Robocop você filmou com o diretor Terrence Malick. Como foi essa experiência?
Joel: Muito estranha (risos). Foi apenas um dia de filmagem…e eu tinha 17 páginas de monólogo! Bom, eu pensei que isso ia se filmado em uma semana, pois normalmente se filma três paginas em um dia. Mas quando o Terrence falou que ia ser um dia apenas, pensei…hummm, ok. Me preparei pra cena durante uma mês. Era um texto muito difícil. Bom, cheguei lá na manhã da filmagem…(risos)…era eu, Terry e o Christian Bale. Nesse primeiro encontro Bale chega e diz: “Hum, Joel deveria dizer algo desse tipo? Hum, que legal.” Pô, vi que ele não tinha visto nada da cena até então. Começamos a cena. Depois que digo as três primeira páginas, ele diz uma pequena coisa que me faz dizer as outras dez páginas de texto! Só que ele não sabia nada sobre a cena e não diz sua fala (risos). Bom, estávamos numa mansão com uns duzentos extras e uns duzentos cachorros andando pra lá e pra cá. O que eu sabia era que o personagem dele tinha que ficar interessado no que eu dizia. Mas, assim que deu o ação, ele saia andando e eu tinha que ir atrás dele falando sem parar! E nada dele dizer a fala dele. Quando eu me virei pra ver Malick, ele estava há metros e metros de distância da gente filmando um cachorro e eu na nona página do meu monólogo (risos). Malick é um poeta. Ele coleta a maior quantidade de material possível para contar uma narrativa e a constrói na sala de montagem. Não sei se ele sabe muito bem pra que vai usar quando está filmando. Só depois ele vai ver se serve pra alguma coisa. Bom, agora é esperar pra ver (risos).

SRZD: E o Padilha?
Joel: Ah, ele era um diretor muito mais organizado (risos). Mas, sério, eu me diverti muito filmando com José. E o respeito muito. Esse é seu primeiro filme americano e não é algo pequeno. Se você é europeu ou vem da América Latina, muitas pessoas vão recomendar você fazer um filme de baixo orçamento, no qual a pressão não é muito grande. Assim você vai ter mais chance de fazer seu próprio filme sem muita gente se metendo. Mas, José não fez isso. Ele fez Robocop! (risos) O filme tem um orçamento enorme e é 98.8% a versão do diretor. Quando ele mostrou o filme pela primeira vez para um público teste, a resposta já muito positiva. A partir disso ele já estava com o jogo ganho. Sei que teve um pequeno problema com relação ao roteiro no começo e o José acabou entrando num carro com destino para o aeroporto para voltar para o Brasil. Ou eles faziam o filme que ele queria ou ele não ia fazer o filme. Eles ligaram pra ele no carro, quase chegando ao aeroporto, e disseram então, “Ok, ok, faça o filme do seu jeito”. Eles aprenderam a respeita-lo bem cedo. Ele fez muita coisa que não é comum em produções americanas. Nós tivemos três semanas de ensaios com todos os atores. Eu nunca havia escutado isso antes. Principalmente numa grande produção americana. Ainda mais com astros conhecidos como Gary Oldman, Samuel L. Jackson e Michael Keaton. Ensaiamos todas as cenas do filme. Mudamos coisas quando foi necessário. Todos os atores tiverem liberdade de dar opinião sobre seus personagens, contanto que alguns aspectos foram mudando aos poucos. E isso ajudou muito a criar um sentimento de equipe. Algo que é bem difícil de conseguir num filme grande como esse. No final todos sentiam que fizeram realmente parte de toda a história. Ego, essa palavra com certeza não fez parte do nosso vocabulário.

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